MALDITOS FILMES BRASILEIROS
TODAS AS QUINTAS-FEIRAS - 18h30 - ENTRADA FRANCA (senhas distribuidas 15 minutos antes de cada sessão) na CASA FRANÇA-BRASIL - Rua Visconde de Itaboraí, 78 - Centro. Tel.: 2253-5366.
A programação do cineclube apresenta clássicos e raridades do cinema brasileiro de diferentes épocas, alternando filmes policiais, faroestes, pornochanchadas, filmes de terror e ficção científica.
PROGRAMAÇÃO DE SETEMBRO
CICLO NORDESTERN
• 15/09 – 18h30
CANGACEIROS DE LAMPIÃO de Carlos Coimbra. São Paulo, 1967. Com Milton Rodrigues, Vanja Orico, Milton Ribeiro, Maurício do Valle, Antonio Pitanga, Walter Seyssel, Sady Cabral, David Neto, Jacqueline Myrna.

Nordeste, 1938. Forças do governo massacram Lampião e seus homens, mas cinco deles conseguem escapar. O pior é que são vividos por experts em papéis de cabras ruins, tendo à frente os monstros sagrados Milton Ribeiro e Maurício do Valle (o rei e o vice-rei do cangaço, respectivamente). Durante a fuga, o bando invade o sítio de Pedro Boiadeiro (o galã Milton Rodrigues) e aproveita para violentar e matar a mulher dele. Pedro Boiadeiro, é claro, não os perdoará.
Carlos Coimbra, o Howard Hawks do nordestern, dirige com vigor essa pequena obra-prima. Em razão do êxito de A Morte Comanda o Cangaço (1960), o cineasta foi contratado pelo produtor Oswaldo Massaini para dirigir a superprodução Lampião, Rei do Cangaço (1963). Depois, para o mesmo Massaini, filmou na cidade paulistana de Itu, com orçamento menor e em preto-e-branco, este Cangaceiros de Lampião.
Sem o compromisso histórico da produção anterior, Coimbra deixa a ação e a violência comerem soltas. E nos brinda com uma das seqüências de estupro mais chocantes dentre as muitas existentes nos nordesterns. Atenção: o massacre do bando de Lampião no final de Lampião, Rei do Cangaço é reaproveitado na abertura de Cangaceiros de Lampião, comprovando o talento de Coimbra também como montador.
• 22/09 – 18h30
O CANGACEIRO DO DIABO de Tião Valadares e Rajá de Aragão (diretor não-creditado). São Paulo, 1981. Com Tião Valadares, Heitor Gaiotti, Claudette Jaubert, Maria Vianna, Milton Donara, Eliane de Sabá, Nestor Lima, José Galã, Dinho Lampa, Nabor Rodrigues.

Nordeste, época imprecisa. Ao descobrir que sua amada foi prometida em casamento a outro, o vaqueiro Januário (Tião Valadares) firma um pacto com o diabo. Com o corpo fechado, ele desenterra os trajes de cangaceiro que pertenceram a seu pai e envereda pelo cangaço. É o início de uma trajetória de crimes, na qual terá como braço-direito o valente Izaías (Heitor Gaiotti). Logo Januário chefia seu próprio bando. A polícia, no entanto, não lhe dará sossego.
Produção paupérrima da Boca do Lixo, é séria candidata ao título de pior nordestern já realizado. Até por isso, resulta divertidíssima. Foi bancada por Tião Valadares, um comerciante que cismou de estrelar um argumento sobre cangaço que ele mesmo inventara. Contratou como diretor Rajá de Aragão, colaborador habitual nos policiais e faroestes de Tony Vieira. Da equipe de Tony Vieira também vieram sua ex-mulher, Claudette Jaubert, e seu mais freqüente parceiro, Heitor Gaiotti. Uma vez pronta a fita, Valadares excluiu o nome de Rajá de Aragão e atribuiu a si mesmo a direção da película.
É provável que Tião Valadares tenha crescido acompanhando as fitas de cangaço de Milton Ribeiro. Em cena, esforça-se para reproduzir os maneirismos e a cara de poucos amigos do vilão de O Cangaceiro. Como roteirista, agrega situações vistas em vários nordesterns: o ritual de fechamento de corpo, a festa num bordel, o chapéu de cangaceiro vestido de forma ritualística etc.
Cenas memoráveis: a tentativa de recriar o célebre ataque a um vilarejo visto em O Cangaceiro, só que aqui sem cavalos; os cangaceiros usando uma corda para atravessar um rio fundo e com correnteza que, evidentemente, não é fundo nem tem correnteza.
• 29/09 – 18h30
FILME SURPRESA

Encerrando a retrospectiva 5 VEZES NORDESTERN, mais um clássico do filme de cangaço, realizado no final dos anos 60, encerrando a época de ouro do gênero. Seu diretor é considerado um dos grandes mestres do cinema da Boca do Lixo.
Nordestern, esse desconhecido
É surpreendente que os auto-proclamados especialistas em história do cinema brasileiro insistam em evocar o nome de Glauber Rocha ao tratar do tema nordestern. Que fique claro de uma vez por todas: não foi o monstro sagrado do cinema novo quem cunhou a expressão, e sim o crítico carioca Salvyano Cavalcanti de Paiva (que, por sinal, não gostava de cinema novo). E que fique ainda mais claro: nordestern é um subgênero de cinema popular brasileiro que nada deve a qualquer obra cinemanovista.
Glauber Rocha, gênio inconteste, soube se valer dos ingredientes da fórmula que outros, muitos outros, já vinham explorando antes dele. Basicamente, trata-se de aclimatar no nordeste do Brasil a equação básica do western: um personagem que representa o Bem enfrenta um personagem que representa o Mal numa terra sem lei. E dá-lhe socos, pontapés, tiroteios, perseguições a cavalo e duelos de facão. O resto é conversa para boi dormir.
Textos e consultoria de Rodrigo Pereira, jornalista, pesquisador e autor da dissertação de mestrado Western Feijoada: o Faroeste no Cinema Brasileiro.
Escrito por Matheus Trunk às 15h16
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