PELA CONSTRUÇÃO DE UMA INDÚSTRIA 1
Caros amigos,
Fiqui um tempão sem postar. Quando posto faço com emoção e acho que ficou o máximo. Depois leio e vi que ficou uma droga. Mesmo assim voltamos ao embate do cinema brasileiro.
Se Deus, se tudo me dessem um dia a graça, a oportunidade e a honra de dirigir um filme
brasileiro, eu dirigiria um filme exatamente como VAI TRABALHAR VAGABUNDO do mestre
Hugo Caravana (é meu mestre pelo menos). Sei que muitos amigos não gostam dele. E falo
como fã de carteirinha: eu acho sinceramente, o final do filme uma bosta, mas o filme é demais.
Talvez seja o melhor registro cinematográfico feito no Brasil nos anos 70. Aqui, Carvana mesmo
tendo sido aluno de Glauber e CIA. exorciza a chanchada como nossa identidade total. Aqui ele
monta uma estrutura de gênios de sua geração (ele, Zezé Motta, Paulo César Pereio, Nelson Dantas,
Nelson Xavier), resgata a chanchada com cabelos longos, bigodes e correntes, não esquecendo
verdadeiros mitos do nosso cinema (Frengolente, WILSON GREY, Rodolfo Arena). Aqui Carvana, além
de produzir o filme, o escreveu todo e ainda foi ator principal, num verdadeira declaração de amor
a morte e a grande coisa que é o nosso cinema. Ontem foi Nelson Dantas, Jardel Filho, Grey, Frengolente,
Joaquim Pedro de Andrade e outros que partiram. Um dia desses é Hugo Carvana, é um homem duma grandeza
de um Stephan Nercessian e não fazem porra nenhuma. Perdão o palavrão ! Mas é a pura verdade. Eu amo
esse filme, embora eu não goste de toda obra do Carvana. "Bar Esperança" e o do "Homem Nu" curto também.
Mas vocês vejam a problemática de pessoas mais jovens conhecerem nosso cinema. Eu sou um dos últimos
pirados que curte isso. Estava com um amigo meu, um dia depois de rever o VAI TRABALHAR. E estávamos falando
de cinema. E eu falei que curtia cinema brasileiro. É claro, ele conhecia mais Cidade de Deus essas coisas. Eu
disse que curtia filmes do Hugo Carvana. Ele me perguntou "Quem é o Hugo Carvana ?". Eu falei "Aquele puta ator
que também é cineasta. Seus filmes sempre falam de sua geração, dos bares, do Rio.", ele continuou sem
entender. Eu podia ter falado que ele tinha participado do Cinema Novo, mas ninguém sabe o que é Cinema Novo
somente quem fez, curte ou odeia o Cinema Novo. Por isso eu disse "o que fez o Lineu naquela novela
Celebridade". Ai ele soube quem era. Esse é o Brasil: terra de grandes homens, grandes obras, mas que
permanece distante de quem mais deveria o conhecer: não os intelectuais da academia, não o Oscar e sim o povo
brasileiro que é representado pelas imagens dos nossos filmes brasileiros. Sou um chato, sou um cafona, mas
não dessito do cinema brasileiro. Dessistir de Hugo Carvana ? dessitir de Jardel Filho ? dessistir de Stephan
Nercessian, de Wilson Grey, de Ankito ? nunca, nunca. Prefiro morrer chato mesmo.
Escrito por Matheus Trunk às 00h39
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