O CHEIRO DO RALO E QUESTÕES DO CINEMA BRASILEIRO ATUAL

No cinema brasileiro atual, temos uma série de problemas sérios que as vezes, somente por um filme ser diferente dos costumeiros ele se torna uma obra-prima. É o caso do superestimado “Cheiro do Ralo”.
Na realidade, no meu pensamento como jornalista, pesquisador e admirador do cinema brasileiro já não estamos mais vivendo a fase da dita “Retomada”. A Retomada, estabelecida a partir de filmes como “Carlota Joaquina” e ditando mercado com filmes marcantes e importantes como “Central do Brasil” e mesmo “Cidade de Deus” se encerra mais ou menos em 2004. A partir daí, a produção nacional fica presa, por filmes que tem ou uma linguagem predominantemente televisiva, atrelada a maior rede de televisão do país: Rede Globo.
A dependência cinematográfica é tanta, que parece que o filme que não está preso a Globo não se paga. Por meio de canais de comunicação seus (como Canal Brasil, pela própria Globo, pelo jornal “O Globo” e revistas como “Época”), a emissora faz ás vezes a produção brasileira se resuma a ela e alguns outros como uma certa família. Estamos, portanto não mais vivendo a fase da Retomada e sim o “período Globo”. Quais foram os dois últimos filmes nacionais que tiveram grande bilheteria e se pagaram ? “Se Eu Fosse Você”, “Zuzu Angel”, “A Grande Família”, todos filmes dessa “estética”. Não estou aqui nem discutindo se é bom ou se é ruim esse domínio global sobre as nossas telas, estou somente fazendo uma constatação. Uma exceção é “Os Dois Filhos de Francisco”, mas que também utilizou da Rede Globo, sendo exibida sua propaganda diversas vezes em programas populares como Faustão.
Se antigamente tínhamos atores, diretores e produtores criados e feitos diretamente para o cinema (Wilson Grey, José Mojica Marins, Tony Vieira, Mazzaropi, Oscarito) hoje em dia temos ao contrário. Os atores são todos membros do star-system global, como Tony Ramos, Patrícia Pillar, Glórias Pires. O cinema brasileiro hoje é dependente da televisão e da novela, especificamente.
“O Cheiro do Ralo” é uma produção que vai na contramão de Globo Filmes. Contando a história de um homem estranho, que vende coisas antigas e bizarras para sobreviver. Nada o interessa profundamente, somente o dinheiro, a bunda da garçonete do bar que almoça diariamente e o cheiro do ralo. Ele não se importa em comprar coisas que talvez nunca vá usar e gastar dinheiro a toa, como um olho que acaba o fascinando ou mesmo em perder a noiva que o ama. É um homem que quer ser esquecido, normal como eu e você. Num momento ele ama a todos e no outro odeia todos. Selton Mello é um dos mais brilhantes nomes dessa geração e brilha no filme. Os atores secundários, estão muito bem, e mesmo o fotógrafo é o experiente e versátil Eliezer. “O Cheiro do Ralo”, é em sua maior duração uma comédia e em certos momentos, até hilário. Tudo é construído de maneira criativa e inusitada. Porém, faltou a Dhalia, uma maneira de encerrar a história da mesma forma humana, inusitada e interessante que a começou. Não chega a ser um filme desinteressante. É um trabalho de brilho e de coragem, mas não chega a ser nem tudo que o Arnaldo Jabor ou o Carlão Reichenbach falaram. Parece aqueles contos extremamente bem escritos do Rubem Fonseca, que muitas vezes são mal terminados. Cotação: ***
Escrito por Matheus Trunk às 00h40
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hoje recebi um dos e-mails que mais me emocionaram em toda a minha vida.
Não sei se eu podia deixar esse e-mail público,mas eu trabalho pelo cinema
brasileiro por pura paixão e portanto, não quero deixar coisas esquecidas.
Prefiro que todo mundo saiba um pouco do reconhecimento que eu estou
tendo.
MATHEUS, olá
Quero te agradecer o gentil tratamento que você deu ao ANJO LOIRO e a minha pessoa e/ou carreira. Foi super-bacana o Sergio ter provomido a exibição, aquele rapaz trazer a cópia e a tarde de ontem acabou sendo muito mais emocionante do que pensava. Como disse ao Sergio, foi uma confusão de sentimentos. Gostei do filme, mas me vieram a lembrança de certas injustiças, a maior a da Censura que truncou a minha vida profissional, me ferrou. Me doeu ver o grande desempenho do Benvenuti e o fato de não ter recebido o merecido reconhecimento, ele era fantástico.
Matheus, você está fazendo um trabalho muito bonito, grandioso, no teu blog. resgatar o cinema não oficial, ir na contra-mão da crítica quie só fala em Glauber e cia., é notável. E me admira muito o teu conhecimento de um cinema (o da Boca) que não tem bibliografia ainda. E acredite, nessa altura da vida, é legal ser lembrado. Como eu disse, estou feliz de em vida ter proporcionado duas homenagens-recordações para o Carlos Coimbra: o prêmio do FestNatal e o livro. Mas você está fazendo muito mais e para mais gente. Parabens mesmo.
Mais uma vez obrigado e qualquer coisa, estou as ordens.
Abraço
Alfredo Sternheim
Escrito por Matheus Trunk às 15h06
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